Programa Na Mão Certa

O que está mudando nas rodovias

O enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescentes nas rodovias só tem a ganhar com a mobilização e capacitação dos caminhoneiros para atuar como agentes de proteção de crianças e adolescentes em situação de risco. Mas para isso é preciso entender a fundo a realidade desses profissionais, que passam boa parte de suas vidas na boleia do caminhão. Daí a importância da atualização da pesquisa O Perfil do Caminhoneiro no Brasil, que teve sua primeira edição lançada em 2005.

Na abertura do Painel Educação do 4º Encontro Empresarial Na Mão Certa, o pesquisador Elder Cerqueira-Santos apresentou dados preliminares do levantamento realizado em 2010. Para a segunda edição da pesquisa, que está em fase de conclusão, foram ouvidos 343 motoristas em seis estados brasileiros: Pará, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. “Apesar de o estudo ter sido realizado em quatro das cinco regiões do Brasil – Norte, Nordeste, Sul e Sudeste –, sua abrangência é nacional, uma vez que os caminhoneiros entrevistados viajam por todo o país”, explica Cerqueira-Santos.

A média de idade dos caminhoneiros entrevistados é de 42,16 anos, um pouco acima do que a observada na pesquisa anterior, que foi de 38,26 anos. O nível de escolaridade também teve um pequeno aumento nos últimos anos, bem como a renda mensal familiar. A principal motivação para a escolha da profissão continua sendo o desejo pessoal, seguido da influência familiar. A falta de oportunidade permanece em terceiro lugar, mas com um percentual menor de motoristas dando essa resposta.

Outro dado preliminar é que, apesar de os dias de trabalho na estrada terem diminuído, o tempo de espera de carga teve um aumento considerável em relação à pesquisa anterior. Entre as atividades realizadas pelos motoristas quando eles estão “parados”, a opção “fazer sexo” recebeu um percentual maior de respostas – dado que também será analisado mais profundamente na conclusão do novo estudo, que revelará ainda quem são as parcerias sexuais dos caminhoneiros quando eles estão na estrada.

A nova pesquisa – que deve ser lançada em 2011 – também vai mostrar como os caminhoneiros têm lidado com a temática da exploração sexual de crianças e adolescentes. Uma novidade é que, quando perguntados sobre o Programa Na Mão Certa, 28% deles disseram conhecer o Programa. Em contrapartida, 29% dos motoristas de empresas signatárias do Pacto Empresarial ainda desconhecem o Programa, o que mostra que as empresas precisam ampliar a divulgação para sensibilizar um maior número de caminhoneiros.

Fazendo a sua parte – O Painel Educação do 4º Encontro Empresarial Na Mão Certa também contou com a participação de caminhoneiros em uma rodada de debates sobre os desafios da profissão e os avanços no enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescentes nas rodovias. O encontro – que reuniu seis profissionais – teve como mediador o jornalista Pedro Trucão, que é conhecido entre os caminhoneiros como “O Repórter das Estradas” e tem sido um importante aliado do Programa Na Mão Certa. Sempre que possível, seja em seu programa de rádio, seja em artigos para revistas do segmento de transportes, Trucão chama a atenção dos motoristas para a temática da violência sexual de crianças e adolescentes. “A ideia é convocar os estradeiros para se tornarem agentes de proteção dos direitos da infância e da adolescência”, afirma.

Entre os principais problemas relatados pelos motoristas quando estão nas estradas, estão a falta de policiamento e segurança, a deficiência (ou ausência) de iluminação em alguns pontos de parada e as longas jornadas de trabalho e esperas de carga, o que, na opinião deles, acaba favorecendo a exploração sexual de crianças e adolescentes. Quando questionados por Trucão sobre o que eles fazem para ajudar no enfrentamento dessa temática, eles disseram que procuram conversar e orientar os colegas e, caso necessário, acionam o serviço de disque-denúncia Ligue 100.

Na opinião do caminhoneiro Edenilson José Gianezi, da Luft, um dos maiores desafios a ser superados é a falta de conscientização de alguns colegas de profissão e – até mesmo de donos de postos de gasolina – de que a exploração de crianças e adolescentes é crime. “A maioria deles é pai de família e, portanto, deveria pensar que o que ele não deseja para seus filhos também não pode querer para outras crianças e adolescentes.” Ele acredita que o problema só será banido com fiscalização e policiamento mais rigorosos.

Para Odair Neves dos Santos, da Gafor, as empresas para as quais os caminhoneiros prestam serviços também podem fazer a sua parte educando os profissionais. “Além de realizar eventos e palestras, elas podem, por exemplo, orientar os motoristas a não oferecer carona para crianças e adolescentes”, sugere. Assim como seus colegas, Santos acredita que outra forma de resolver o problema é ampliar a divulgação do Programa Na Mão Certa em todo o país, de forma a atingir, inclusive, caminhoneiros autônomos e profissionais de outros setores.

 

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