Os novos eldorados econômicos da Amazônia apresentam números de exploração sexual de crianças e índices de qualidade de vida na infância piores que os de outras cidades na floresta, segundo matéria publicada pelo jornal O Estado de São Paulo no início de setembro. Líderes na arrecadação de impostos e royalties de gás, petróleo, bauxita e minério, os municípios de Coari (AM), Juruti e Parauapebas (PA) vivem um boom econômico, mas registram, ao mesmo tempo, índices de violência contra meninas proporcionalmente semelhantes aos que surgiram nos anos 70, no rastro da traumática experiência de desenvolvimento impulsionada pela Rodovia Transamazônica, pela mina de Serra Pelada e pela hidrelétrica de Tucuruí.
Após 34 anos da abertura da Transamazônica e de 25 anos do auge do garimpo e da inauguração da usina, a Amazônia desses municípios repete padrões de crescimento igualmente destruidores, tem gestões públicas sem transparência, além de ignorar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
A estatística das meninas grávidas com idade até 15 anos é o retrato fiel da situação. Das mulheres que tiveram filhos no Brasil, nos primeiros seis meses deste ano, 1,3% estavam nessa faixa. Esse índice cresce nos Estados do Amazonas e do Pará para 1,9%, mas é dez vezes maior em Coari, 13,9% - em 1995, um ano antes da chegada da Petrobras à cidade, 1,7% das grávidas do local tinha idade abaixo de 15 anos.
Parauapebas registrou no primeiro semestre deste ano uma taxa de 2% de grávidas com idade abaixo de 15 anos. Em Juruti, do total de grávidas atendidas no hospital local, no ano passado, 2,5% tinham idade abaixo de 15 anos - esse porcentual foi de 0,9% em 1995.
Nos projetos de prefeituras e empresas que lideram a atividade econômica nesses locais - Alcoa, Vale e Petrobrás - sobram intenções e faltam objetivos práticos que mudem o panorama. E não é por falta de dinheiro.
Prisões em Coari
O eldorado da prostituição infantil, relatado acima na reportagem do jornal O Estado de São Paulo, se alastra por toda a região amazônica. Em Coari, muita gente foi presa durante a deflagração da Operação Vorax, da Polícia Federal, em maio deste ano, para investigar uma quadrilha liderada pelo prefeito do município, Adail Pinheiro. A quadrilha foi acusada de sonegar impostos, fraudar licitações, desviar verbas públicas e também de explorar sexualmente crianças e adolescentes.
Segundo a PF, o empresário Fábio Martins, da agência Mega Models, levava "modelos" para eventos em Coari, que faziam programas sexuais pagos com recursos públicos. As meninas chegavam a receber R$ 3 mil por programa. A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pedofilia do Senado Federal passou também a investigar os casos de exploração sexual infanto-juvenil em Coari.
Em Coari, a Polícia Federal prendeu o vice-prefeito Rodrigo Alves, Walter Braga Ferreira (membro da Comissão de Licitação), Rome Cineide Gomes (secretária de Finanças), Leila Regina da Silva Menezes (membro da Comissão de Licitação), Adriano Salan (ex-secretário de Administração), Haroldo Portela (assessor pessoal de Adail Pinheiro), Paulo Sérgio Chagas Pereira (subsecretário de Obras) e Paulo Emílio Lemos Bonilla (secretário de Obras).
Caso da garota que virou escândalo nacional
Os casos de exploração sexual de crianças e adolescentes na Amazônia alcançaram tal intensidade que um deles, ocorrido em Roraima, acabou se transformando em pano de fundo para o mais recente escândalo político nacional - os grampos de autoridades federais.
O depoimento de uma garota de 14 anos à CPI da Pedofilia do Senado, que motivou o telefonema do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) para o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Gilmar Mendes, ocorreu sem a interferência do Supremo, conforme informou o jornal Folha de São Paulo.
A garota de 14 anos, protegida pelo Programa de Proteção à Testemunha, depôs à CPI numa sala da Polícia Federal, em Brasília. A garota disse que fez programas com empresários e autoridades do Estado e citou nomes, inclusive o de um deputado federal. A garota foi descoberta pela Operação Arcanjo, da Polícia Federal, que desvendou uma rede de pedofilia em Roraima. As vítimas, segundo o presidente da CPI, senador Magno Malta (PR-ES), eram crianças de famílias humildes, em sua maioria, com idades que variam de 5 a 14 anos.
* Com informações dos portais Kaxi, Amazonia.org.br e Estadão