Reinaldo Bulgarelli*
O Compromisso 4 trata de mobilização dos funcionários, sugerindo uma série de ações que expressem o convite da pessoa jurídica à pessoa física para atuar conjuntamente no enfrentamento da exploração sexual nas rodovias brasileiras. As ações sugeridas neste compromisso são:
Incentive
ações voluntárias de funcionários junto
ao Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente
(programas de voluntariado integrados ao tema); O Programa Na Mão Certa dialoga com as empresas (pessoa jurídica) por meio do Pacto, dos Compromissos e da produção de um conjunto de conteúdos e estratégias que colaboram para revisão e aprimoramento de políticas, processos ou procedimentos institucionais. Direta ou indiretamente, essas medidas contribuem no campo da prevenção e do enfrentamento à exploração sexual de crianças e adolescentes nas rodovias brasileiras.
Contudo, o que há de mais interessante no Programa é o diálogo estabelecido com os caminhoneiros, desde a pesquisa realizada até a produção de materiais e estratégias que o consideram positivamente como sujeito do processo que pode fazer toda diferença na busca de resultados concretos.
Raras vezes fica tão evidente para as empresas que responsabilidade social é algo compartilhado entre pessoas jurídicas e pessoas físicas. Neste caso, fica explícito o convite para atuação conjunta dentro de algo mais estruturado e com uma visão positiva e respeitosa.
O Compromisso 4 aprofunda algumas possibilidades além das que já foram abordadas aqui no conjunto de artigos que tenho oferecido. Ele envolve todos os funcionários da empresa e não apenas os caminhoneiros, compreendendo que todos podem encontrar formas de contribuir a partir da criação de uma comunidade de sentido. Trata-se de um processo de mobilização em que a comunicação é fundamental para essa criação da comunidade que compartilha sentido e faz com que, de qualquer lugar ou com qualquer ação, cada um saiba que está contribuindo para a missão do Programa.
É o caso dos profissionais que cuidam da gestão de pessoas, compras, recepção, financeiro, logística, entre outros diretos e terceiros. Também há uma ampla visão sobre as possibilidades de atuação, mantendo o foco no horizonte positivo da promoção dos direitos humanos de crianças e adolescentes.
O Compromisso fala sobre ações voluntárias de funcionários junto ao Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente. Em cada município há, em maior ou menor número, um conjunto de ações que podem envolver entidades sociais que complementam o horário escolar, abrigos, escolas abertas a voluntariado, entre outras possibilidades.
Se a empresa não possui ainda um programa de voluntariado, é uma boa oportunidade para pensar no tema. O contato com o Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente é sugerido porque este órgão deve ser a principal fonte local de informações seguras sobre onde e como atuar nesta área. Cabe ao Conselho analisar a situação local e propor políticas e programas de atenção aos direitos infanto-juvenis. Por meio do Conselho, a empresa e seus colaboradores podem identificar o que já existe e o que precisa ser implementado no município, assim como ações que necessitam desta atividade complementar dos voluntários.
O Estatuto da Criança e do Adolescente é o que norteia as ações do Conselho de Direitos e do Conselho Tutelar – este último é um órgão que atua em casos individuais ou coletivos concretos. Atende situações em que há problemas com a garantia do direito à educação, saúde, lazer, cultura, profissionalização, situações de violência, abandono, negligência, entre outros. Por meio deste atendimento, o Conselho Tutelar acaba por identificar as potencialidades e deficiências do sistema local de direitos humanos da criança e do adolescente, sugerindo melhorias ao Conselho Municipal de Direitos.
O que isso tem a ver com exploração sexual nas rodovias? A idéia aqui é fortalecer esse sistema local de atenção aos direitos humanos da criança e do adolescente para que todos encontrem condições de se desenvolver plenamente, sem os problemas causados pela pobreza, negligência, violência, abandono e demais formas de violação de seus direitos.
A educação e as ações complementares à escola são fundamentais nesta questão, mas programas de atenção a crianças e adolescentes vítimas de violência, de trabalho infantil, que se encontram nas ruas, entre outras, podem fazer toda a diferença no quadro geral do município em relação à qualidade de vida de sua população, sobretudo a mais jovem.
Outro aspecto importante é a criação de mecanismos de reconhecimento dos caminhoneiros que atuam efetivamente, engajados na causa que o Programa Na Mão Certa defende. Para isso, cada empresa pode encontrar sua forma de reconhecimento. O pano de fundo de qualquer ação neste campo, contudo, é a visão positiva sobre o caminhoneiro e seu papel como protagonista de ações conseqüentes.
O Programa sugere prêmios, selos, a realização de cafés-da-manhã onde as ações sejam comunicadas, valorizadas pela alta liderança da empresa. Pode-se envolver ainda a família nestes momentos de reconhecimento e valorização individual ou coletiva de ações que tenham sintonia com a causa do Programa.
Há muitas pessoas que entendem que sua melhor contribuição junto a organizações sociais governamentais ou não-governamentais é articulando ou realizando doações. Não podemos desqualificar essa ação, que é importante como forma de assistência àqueles que necessitam desse tipo de contribuição, além de servir, em um programa estruturado de voluntariado da empresa, como fonte de aprendizado sobre a questão social do país, nossa legislação, práticas cada vez mais conseqüentes e comprometidas com cidadania. Nestas ações voluntárias, cada pessoa pode oferecer o que possui e sabe, com tempo, recursos, conhecimentos colocados a serviço dessa causa: promoção e garantia dos direitos humanos da criança e do adolescente expressos no Estatuto e na Constituição de nosso país.
Fazer qualquer coisa de qualquer jeito é uma forma de banalizar o problema e até piorá-lo. Mas ter a humildade de começar e realizar ações simples que melhorem a vida de todos nos municípios onde estão nossas empresas, por onde passam nossos caminhões e onde identificamos que há problemas com a exploração sexual de crianças e adolescentes é algo relevante e que só nos torna melhores em empresas melhores. Bom trabalho!
* Diretor da empresa de consultoria Txai Cidadania e Desenvolvimento Social