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Histórias de exploração sexual nas rodovias do Ceará

Em 2007 uma série de reportagens sobre exploração sexual de crianças e adolescentes no Ceará foi finalista regional do Prêmio Esso de Jornalismo – a mais importante premiação da categoria profissional no Brasil – e do Prêmio Imprensa Embratel. O caderno especial publicado em dezembro de 2006 pelo jornal O Povo, de Fortaleza, originou-se de um projeto inscrito na 3ª Edição do Concurso Tim Lopes de Investigação Jornalística, realizado pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI) e pela Childhood Brasil. Leia nesta edição uma síntese dos relatos sobre os municípios cearenses de Sobral e Penaforte. Nas próximas edições, novos trechos do Documento BR.

SOBRAL
Cidades improvisadas do prazer
Demitri Túlio / O Povo

Um posto de combustível, BR-222, entrada de Sobral, 21 de setembro, noite de uma quinta-feira... A placa, em verde e amarelo, avisa que o funcionamento é 24 horas. O tempo não pára e o turno da noite transforma o posto de gasolina em uma improvisada "zona franca do prazer". Desejos efêmeros. Dez, quinze minutos, ao preço de R$ 15,00, e negócio resolvido. ... Os mais de 50 caminhões cargueiros estacionados, um ao lado do outro, criam espaços imaginários de uma cidade espremida. Esquadrinham ruas. ... Posto de gasolina, afinal, assume ar cosmopolita, local de passagem, travessia de forasteiros.

À noite pernoitam por lá porque têm medo da estrada que escurece perigosa na BR- 222 até Fortaleza ou rumo a outros destinos. Assaltos, quadrilhas, cochilos, acidentes e predação. Mas no posto, os viajantes acabam predadores. Caças também. Nas ruas estreitas, formadas simbolicamente entre as carrocerias dos trucados, há cotidianos. É a continuação de uma zona improvisada que começa na avenida principal do posto de combustível. Rua de calçamento, encardida de óleo e borracha, por onde passam (pra lá e pra cá) e se oferecem meninas e bichas. "Vamu namorá, bichim?", aborda Clara - sobralense que aparenta ter cara de 17, mas diz ter 21 anos e revela ter se iniciado na vida à beira da BR aos 15 anos. ...

As boléias servem de chatôs. À noite ganham jeitos e odores de cabaré. O banco se transforma em cama e a película nos vidros das janelas impede que a privacidade vaze. Nem tanto, todo mundo escuta, todo mundo sabe, todo dá conta de tudo. São dez ou quinze minutos... Mas não são apenas caminhoneiros que aceitam o oferecimento das caças. Clara, nome fictício da menina que foi iniciada nas histórias aos 15 anos de idade, solta que um policial rodoviário federal foi o primeiro programa. No próprio posto de fiscalização, a poucos metros do posto de gasolina. Vizinhos. ...

Procurado por O POVO, o chefe do posto da Polícia Rodoviária Federal em Sobral, Francisco Lira Pessoa, o "Chico Lira", disse que "efetivamente registrado", não sabe de nenhuma denúncia envolvendo patrulheiros em casos de abuso e exploração sexual de adolescentes na BR-222. "No posto da Polícia Rodoviária acho muito difícil". Ainda Chico Lira: "Na realidade, falo por mim. Eu tenho policiais jovens, solteiros. Não posso responder por um plantão de cinco homens. Nunca foi registrado. Por isso digo que boato é boato. Uma coisa lhe digo: se chegar uma denúncia contra um colega meu aqui, ela vai tomar o trâmite legal imediatamente".

Na giratória que dá acesso a Sobral, uma imagem de São José "olha" na direção de um dos postos de combustível onde a Polícia Rodoviária Federal mapeou como ponto de exploração sexual/comercial de criança e adolescente. O santo, que traz nos braços uma imagem do Menino Jesus, é protetor das famílias. A maior parte das meninas entrevistadas revela problemas de relacionamento com o pai, padrasto ou avô.

PENAFORTE
O pátio das "quibas"
Cláudio Ribeiro e Demitri Túlio / O Povo

Na esquina da avenida Antonia Matias com a BR- 116, a placa convida o forasteiro a entrar e se sentir "bem-vindo" à quente Penaforte. Mas a maioria dos que chegam estão apressados e não passam da sala de visitas onde funciona o posto de fiscalização da Secretaria da Fazenda do Estado (Sefaz). É o último ponto de apoio no Ceará antes do vizinho Pernambuco. Lá, diferente do restante do município (de pouco mais de 7.500 habitantes), tudo funciona dia e noite.

Ali, o tempo é acelerado pelo entra-e-sai de centenas de caminhões de carga que chegam e vão pra todas as partes do Brasil. Segundo quem é da cidade, são mais de 1.500 pessoas com trabalho direto ou indireto no local. Inclusive as meninas e meretrizes a cortejar viajantes. Todas, pelas contas informais, seriam mais de cem. É no pátio-estacionamento e nos arredores do posto da Sefaz que as cenas vão se desenhando.

Como cicerones, crianças biscateiras e descoladas. "Profissionais" autônomos, de oito, dez, 12 anos, pouco mais ou pouco menos, dispostos a lavar pneus, boléias e gaiolas. Também a intermediar rendezvous passageiro com essa ou aquela zinha... Em bandos, adultas ou meninas, fazem enxame no furdunço. Iluminação amarelada, caminhões estacionados, motoristas, policiais e metralhadoras, cinturão de puteiros, bares inferninhos, barracas de vender coco verde gelado, churrasquinho, chá, café, bolo mole, e um pipoqueiro. Forró nas alturas...

Penaforte, com uma população de 7.316 pessoas, fica a 546,8 km de Fortaleza. Fincada em um dos pontos mais pobres da região do Cariri, se avizinha às cidades Salgueiro (rota da maconha) e Verdejante em Pernambuco e é ponto de entrada e saída de caminhões de carga. É na boléia que meninas de outros estados chegam a uma das zonas mais concorridas do roteiro de exploração sexual e comercial de criança e adolescente do Ceará.

Segundo o Conselho Tutelar, 80% dos casos de exploração sexual de crianças e adolescentes no município são oriundos do Posto de Fiscalização da Secretaria da Fazenda do Ceará (Sefaz), localizado na entrada da cidade. Também há muitos registros de trabalho infantil e abandono de crianças. O município não possui diagnóstico sistematizado sobre a situação da criança e o adolescente em situação de risco na zona urbana e rural.

Alex (nome fictício), 12 anos de idade, boa parte deles se virando - dia e noite - no posto da Sefaz admira-se: "Quibas? São as matutas que descem dos sítios pra cá. Matutinhas, doidinhas. Quer conversar com quem?" ... Alex experimenta aquele cotidiano há tempos. Ele mesmo já havia revelado: mora com a avó que já foi dona de um bar-prostíbulo ... O meio de vida da avó fechou. A tia de Alex abriu outro negócio e, em julho desse ano, o Ministério Público flagrou por lá duas adolescentes de Jati. Uma de 16 e outra de 17 anos de idade. As duas foram aliciadas por uma mulher. "No depoimento, uma disse que a amiga teve relações sexuais com o caminhoneiro na cama da dona do bar. Foi preso o proprietário e a agenciadora", conta Rodrigo Fernandes, 22, conselheiro tutelar.

... Poucos camioneiros quiseram falar com O POVO durante as viagens da equipe. Em Penaforte, um deles disse que a exploração sexual infanto-juvenil é idêntica ou pior nos demais estados. Citou Maranhão, Pará, Pernambuco, Paraíba, onde meninas de 12 anos ou menos se exibem por alguns trocados. "Do Ceará, Penaforte é o pior local". Casado, pai de duas filhas e um filho, 25 anos de estrada, pediu para não ser identificado.

Idade Alterada

Logo que ela passou, os traços infantis do rosto chamaram atenção. Embora o corpo já não fosse de menina. Depois da abordagem para a entrevista, ela garantia: "Fiz 18 este ano". Conversa vai, conversa vem, no dia seguinte a confirmação: Paula não tinha 18. Completou só 16 em junho passado. Confirmação dada pelo Conselho Tutelar da cidade.

Os programas sexuais, ela faz desde os 12, em frente ao pátio de caminhões do posto fiscal de Penaforte. Paula já passou por quatro notificações do Conselho Tutelar. A poucos metros do local da conversa, dois dias antes haviam matado um com sete tiros. Medo, Paula (nome fictício) disse que sempre teve. Cobra R$ 10,00 para transar, por ali mesmo ou em algum quartinho que lhe deixem entrar com o caminhoneiro. Sempre deixam.

O POVO - Você é de onde?
Paula - De São Paulo.

OP - Chegou aqui quando?
Paula -Tô aqui faz uns seis anos. Desde que eu tinha uns 12 anos.

OP - Quanto você cobra por um programa?
Paula - Dez reais.

OP - Você sobe nos caminhões ou vai para os quartos?
Paula -Tanto faz.

OP - Quantos programas por noite?
Paula - Quatro, três.

OP - Passa alguém fiscalizando a presença de vocês por aqui?
Paula - Quando eu era de menor, andava escondida por aqui. Teve vez que eles já me viram, me levaram e me aconselharam. Aí pronto. Eu tinha 17 anos. Eles sabem lá, já tem meus dados. Por isso que agora eu ando por aqui normal.

 

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