Programa Na Mão Certa

A importância das parcerias e pesquisas na prevenção e no enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescentes


Fotos: Romero Cruz

A influência positiva do trabalho em parceria e do aprendizado com estudos territoriais e setoriais no enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescentes

A importância das parcerias e pesquisas na prevenção e no enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescentes (ESCA) foi tema do primeiro painel do 12º Encontro Anual Na Mão Certa. A realização de estudos, pesquisas e análises de dados, feitos pela Childhood Brasil para diagnóstico do problema, com o apoio de empresas parceiras, propiciam a elaboração de planos de ação em busca de soluções para prevenir e enfrentar o problema da exploração sexual de crianças e adolescentes, ampliando o alcance para além das estradas brasileiras. O painel foi mediado pelo jornalista e radialista Pedro Trucão, embaixador e voluntário do Programa Na Mão Certa.

Parceria SEST SENAT


Jamile Antunes Coordenadora de Desempenho Operacional Integrado da Diretoria Executiva do Sest Senat

A abertura do painel foi feita por Jamile Antunes, coordenadora de Desempenho Operacional Integrado da Diretoria Executiva do SEST SENAT (Serviço Social do Transporte/Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte), que apresentou o Projeto Proteção e o trabalho realizado em parceria com a Childhood Brasil. Desde 2017, o SEST SENAT mantém cooperação com o Programa Na Mão Certa, com o objetivo de manter o intercâmbio de conhecimentos técnicos no enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescentes e para ampliar o diálogo com os trabalhadores do setor de transporte. A partir da parceria já foi possível realizar o treinamento de profissionais de 30 unidades operacionais da entidade, priorizando cidades nos arredores dos pontos vulneráveis mapeados pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) e por denúncias do Disque 100.

“Estamos conseguindo avançar com o apoio da Childhood e treinar melhor nossos colaboradores para atuar no problema”, ressaltou Jamile, ao definir o Programa como “o braço direito” do SEST SENAT na causa, além da importância de parcerias com a PRF e das redes locais de proteção, e das empresas do setor de transportes. “Temos de estar juntos pela proteção das crianças e adolescentes. Cada vez mais é a união que faz a força”, sentenciou.

Em 2018 o Projeto Proteção já sensibilizou 98,5 mil pessoas por meio de campanhas nacionais, rodas de conversa, atuações transversais de projetos de saúde e ações realizadas junto às mídias sociais.

Acesse a Apresentação SEST SENAT
Autor: Jamile Antunes - Coordenadora de Desempenho Operacional Integrado da Diretoria Executiva do Sest Senat

Projeto Territorial


Prof. Dr. Elder Cerqueira-Santos, Pesquisador da Universidade Federal de Sergipe

A segunda apresentação do painel ficou por conta do Prof. Dr. Elder Cerqueira- Santos, da Universidade Federal de Sergipe e pesquisador que há dez anos coordena as pesquisas realizadas pelo Programa que traçam o perfil do caminhoneiro brasileiro, estudos fundamentais para o desenvolvimento do Programa Na Mão Certa. Do plano mais amplo, o perfil nacional, as pesquisas agora começam a evoluir para estudos específicos em territórios ou setores que tem maior relação com os fatores de risco identificados nos 10 anos da pesquisa nacional.

“As pesquisas ao longo de 10 anos permitiram compreender o que acontecia nas estradas com relação ao problema da exploração sexual de crianças e adolescentes. A série histórica de pesquisas “O Perfil do Caminhineiro no Brasil” consolidou um conhecimento importante sobre os fatores de risco e nos levou a entender que existem territórios e setores que demandam um diagnóstico mais específico”, justificou.

Prof. Elder apresentou dados de estudos recentes sobre duas regiões com alto fluxo de transporte rodoviário de cargas: o Polo de Camaçari, na Bahia; e a rota do Mato Grosso até Rondônia pela BR-364, conhecida como “Corredor da Soja”.

Esses estudos nasceram dos dados de que as regiões Norte e Nordeste, por várias razões – desde questões políticas, de governo ou pela precariedade de infraestrutura – sempre foram apontadas como as mais problemáticas na questão da exploração sexual de crianças e adolescentes pelos caminhoneiros. “As duas pesquisas aconteceram em regiões que apresentam características específicas que não dependem apenas da análise das operações logísticas das empresas de transporte. Precisamos conhecer a situação das crianças e adolescentes e as questões históricas, sociais e culturais que levam a naturalização da exploração sexual de crianças e adolescentes”, revelou.

De acordo com o pesquisador, os estudos detectaram que as condições de trabalho estão entre os fatores de risco e vulnerabilidade do caminhoneiro para seu possível contato e envolvimento com a exploração sexual de crianças e adolescentes, como o tipo de contrato com a empresa (autônomo, agregado ou CLT), horário de trabalho, tempo que passam fora de casa e, principalmente o tempo para carregar e descarregar.

As pesquisas apontaram ainda para a existência de uma relação direta entre a qualidade da infraestrutura dos pontos de parada e descanso com a maior ou menor envolvimento do caminhoneiro com a exploração sexual de crianças e adolescentes. Portanto, o ponto de parada é chave no enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescentes, pois quanto melhor é a infraestrutura dos lugares utilizados pelos caminhoneiros como pontos de parada e postos de gasolina, menor é o seu envolvimento com situações de risco, entre elas, a possível oferta de programas sexuais com crianças e adolescentes.

Questões culturais, a desigualdade de gênero, o adultocentrismo e a cultura do machismo também são fatores de risco identificados nas pesquisas e tem uma estreita relação para o envolvimento do caminhoneiro com a exploração sexual de crianças e adolescentes. Outros hábitos comportamentais, como o consumo de álcool e drogas, e até mesmo a prática do sexo pago com mulheres adultas, são comportamentos preditores que, igualmente, podem induzir de forma situacional o envolvimento com a exploração sexual de crianças e adolescentes “Nosso objetivo é reduzir os fatores de riscos e com isso aumentar a proteção da criança e do adolescente”, aponta o professor.

Um ponto positivo evidenciado nas novas pesquisas, ao analisar o estudo da rota BR 364, por exemplo, é que boa parte dos caminhoneiros contratados pelas empresas residem na região onde trabalham. Com isso, para estes profissionais existe um sentimento de pertencimento que gera um cuidado maior em alguns aspectos cotidianos. “Identificamos com esses estudos que há uma relação forte dos motoristas com a comunidade. O fato dele dirigir “na área onde mora” o torna mais responsável com o que acontece na região”, apontou o pesquisador.

Na opinião do Prof. Elder, os novos estudos locais permitem avaliar os fatores de risco já mapeados nas pesquisas nacionais sob a ótica territorial e, isso, permite identificar as potencialidades para uma atuação customizada à realidade local. “A partir de um projeto territorial é possível reduzir riscos e educar caminhoneiros e com isso aumentar a proteção de crianças e adolescentes”, ressaltou, “Hoje já somos capazes de avançar e traçar perfis do caminhoneiro e realidades locais, e com isso trazer para o Programa e as empresas participantes um olhar refinado que permite demonstrar qual o potencial de atuação delas no território estudado. Essa nova perspectiva indica que, apesar de o problema ser grande, há um caminho a ser seguido. Essa atuação territorial só traz benefícios. Cuidar dos seus profissionais e da comunidade é também cuidar do próprio negócio”, finaliza.

Para trazer um pouco do dia a dia para o debate foram apresentadas as impressões de empresas e trabalhadores do setor de transporte sobre estes avanços de atuação do Programa.

Acesse a Apresentação Novas Pesquisas "O perfil do caminhoneiro"
Autor: Prof. Dr. Elder Cerqueira-Santos, Pesquisador da Universidade Federal de Sergipe

 


Edna Santana Azevedo, Analista de Logística da Braskem

A Analista de Logística da Braskem, Edna Santana Azevedo, empresa que há dez anos participa do Programa Na Mão Certa, falou das melhorias que a empresa fez nos centros de triagem (locais onde o motorista aguarda enquanto o caminhão é carregado) e como isto reflete na operação da empresa. “A gente ganha com melhor performance e segurança no carregamento, além atuar de forma consciente na redução de vulnerabilidade do caminhoneiro”, citou.


 

 


Heloisa Torres, Supervisora de Sustentabilidade da Amaggi

A Supervisora de Sustentabilidade da AMAGGI, Heloísa Torres, ressaltou a importância dos motoristas para a concretização do sucesso do trabalho da empresa e contou sobre o Programa de Logística Responsável, que a empresa realiza desde 2012, criado para atender as necessidades dos motoristas em aspectos de segurança, conforto e bem-estar. No entanto, ela reconhece que por trabalhar com uma quantidade muito grande de motoristas autônomos e agregados era mais difícil engajá-los nessa iniciativa e conscientização pela proteção de crianças e adolescentes, justamente por não ter mais informações sobre o perfil desse colaborador da operação e as questões que influenciam de maneira direta seu trabalho diário. Outro ponto importante que Heloisa reforçou foi a importância de atuar nas relações “extramuros” da empresa. “Essa vai ser a grande chave da nossa mudança e é isso que a nova pesquisa da rota BR 364 trouxe para gente”, sinalizou.

 


Edenilson da Silva, motorista da Jaloto Transportes

O motorista Edenilson da Silva, da Jaloto Transportes, confirmou que os pontos de paradas são “um sofrimento” para eles. “A comida é ruim, cara, os banheiros, sujos. Já nos pátios em que tem a SENAT, pronto, resolveu o problema”, citou. A declaração confirma a necessidade de melhorar os locais de parada e investir na qualidade de vida dos profissionais da estrada.


 


Marcio Aparecido Marfil, motorista da Golden Cargo

Já o motorista de carreta Márcio Aparecido Marfil, da Golden Cargo, afirmou que ao longo dos anos o problema da exploração sexual de crianças e adolescentes tem sido mais abordado junto a categoria, demonstrando uma maior compreensão e uma sensível melhora. “Hoje a gente conversa sobre o assunto e tem mais coragem de denunciar. É um trabalho que tem mesmo de ser feito em conjunto”, considerou.


 


Ezequiel Costa Marques, piloto fluvial da Unitapajós

Um momento especial do encontro foi a participação do piloto fluvial Ezequiel Costa Marques, que trabalha na empresa Unitapajós, empresa que participa no Programa Na Mão Certa em duas frentes, com os caminhoneiros e com os aquaviários.

Ezequiel relatou que o problema da exploração sexual de crianças e adolescentes é também uma realidade do transporte hidroviário. Atuando na região da Bacia Amazônica, ele comentou que, apesar das diferenças do trabalho nas estradas, o problema também existe, principalmente em trechos de comunidades ribeirinhas. “Devemos ter dentro de nós a consciência de que essa realidade mude”, reafirmou.

 

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