Programa Na Mão Certa

Roda de conversa com caminhoneiros expõe os desafios do engajamento

Fotos: Romero Cruz

Importante parceiro do Programa, Pedro Trucão conduziu a conversa com os caminhoneiros

Conduzido pelo jornalista e radialista Pedro Trucão, há oito anos porta-voz do Programa Na Mão Certa, a roda de conversa com os caminhoneiros foi um dos pontos altos do encontro anual que em 2016 comemorou 10 anos de atuação do Programa.

Ao todo, 35 caminhoneiros marcaram presença no evento e 10 subiram ao palco para expor as alegrias e dificuldades da profissão, a realidade da exploração sexual de crianças e adolescentes nas estradas do país e como o Programa Na Mão Certa mudou a percepção deles diante do problema.

O engajamento dos caminhoneiros com a temática foi um dos assuntos mais discutidos. ”É um tema muito difícil de falar. Tem que saber abordar, porque senão o motorista, ao invés de se aproximar, se volta contra”, disse Thiago Lisboa, motorista da Patrus Transportes Urgentes Ltda, ao comentar que viu resistência dos colegas nos treinamentos.

Tendo atuado como multiplicador, João Batista Lenker, motorista da Gafor Logística S/A, reforçou a importância do cuidado na abordagem com os profissionais. Mas embora o tema seja delicado, ele contou que ao final do treinamento os caminhoneiros costumam agradecer a oportunidade. Para ele, esse profissional não é o vilão e nem o principal “cliente” da exploração sexual de crianças e adolescentes nas estradas do país. “É uma corrente que cada vez cresce mais. O Programa Na Mão Certa deu o pontapé inicial”, afirmou.


Clesliana Dutra Ferreira - Motorista da Patrus Transportes Urgentes

Única mulher motorista, Clesliana Dutra Ferreira, da Patrus Transportes Urgentes Ltda, ponderou acreditar que eventuais resistências ao tema tem relação com o machismo da nossa sociedade. “O homem não acha que algo assim vai acontecer com a família dele.” Por ser mulher, Clesliana explicou que tais “serviços” de exploração sexual de crianças e adolescentes não são oferecidos para ela quando está na estrada. Sem negar que o problema exista, disse, por outro lado, que houve nos últimos anos uma mudança no perfil do caminhoneiro profissional. “Hoje a maioria têm consciência do assunto.”

Mediador do debate, Pedro Trucão comentou que há cerca de 10 mil motoristas mulheres no transporte de cargas no Brasil, um número muito baixo se considerado o total de cerca de dois milhões de caminhoneiros no país. Ainda assim, disse Trucão, cada vez mais mulheres tem entrado para a profissão.

CLT e autônomos


Roda de Conversa com motoristas das empresas participantes do Programa Na Mão Certa conduzida por Pedro Trucão

A diferença de engajamento no Programa Na Mão Certa do caminhoneiro com vínculo CLT e do profissional autônomo foi o principal tema debatido na roda de conversa. Entre os profissionais presentes, tanto aqueles que estavam na roda com Trucão quanto aqueles que estavam na plateia, mas também se manifestaram, foi quase unânime o fato de que o caminhoneiro autônomo tem menos acesso ao Programa.

Para mudar esse quadro, Josevaldo Silva Lima Jr., caminhoneiro da Transportes Toniato Ltda, defende que deve haver a iniciativa da empresa em formar e conscientizar o profissional autônomo, especialmente quanto este tem um contrato contínuo e é chamado de “agregado”. Quando o caminhoneiro é funcionário CLT, disse Josevaldo, ele é obrigado a ir nos cursos promovidos pela empresa, mas o “agregado” não. Para ele, a mudança só vai ocorrer quando o “agregado” também for obrigado a participar das formações promovidas pela empresa, passando a ter o mesmo acesso às informações e a educação continuada.

Eduardo Pereira, motorista da empresa Santos Brasil Logística S/A, explicou que os “agregados” ficam pouco tempo na empresa, o que dificulta a formação e engajamento com a prevenção da exploração sexual de crianças e adolescentes nas estradas. Uma sugestão apresentada, foi reforçar a participação dos Sindicatos dos caminhoneiros autônomos na disseminação da informação e na educação continuada, seguindo o exemplo da atuação do movimento Truckers Against Trafficking apresentado no evento.

Uma nuance parece ter ficado clara do debate: mesmo quando o caminhoneiro é autônomo, mas atua como “agregado” de maneira contínua para a mesma empresa, ele se envolve e conhece o Programa Na Mão Certa. O problema maior é aquele caminhoneiro autônomo sem ligação mais estreita com nenhuma empresa. Esse, pela inexistência de qualquer vínculo, acaba não participando da educação continuada promovida pelas empresas.

Tal avaliação, entretanto, não foi unanimidade. Carlos Tadeu Mazzochi, caminhoneiro da empresa Cesari Logística Ltda, questionou a ideia predominante de que o autônomo não tem informação sobre o crime da exploração sexual. Ele disse acreditar que há sim informação e que a conscientização hoje é maior. “Deu uma melhorada boa.”

De todo modo, a roda de conversa deixou claro que ainda é preciso promover ações para abranger e engajar os motoristas autônomos que não tem vínculos contínuos com a mesma empresa. É importante registrar que os autônomos representam cerca de 50% dos profissionais do transporte de carga do país. Um recado que os gestores e parceiros do Programa entenderam e terão que atuar para melhorar ainda mais o que já vem dando certo.


O Encontro Anual foi marcado pela expressiva presença de motoristas das empresas participantes do Programa Na Mão Certa , os "Agentes de Proteção" da infância e adolescência nas rodovias brasileiras.

 

 

  Leia também  

Programa Na Mão Certa celebra 10 anos, revive sua trajetória e projeta novos desafios
Os primeiros passos numa longa estrada
A arte imita a vida para contar os 10 anos da trajetória do Programa
Case Truckers Against Trafficking mostra inovações e semelhanças no enfrentamento da exploração sexual
Encontro Anual apresentou as diretrizes do Programa Na Mão Certa
Globo Estrada Na Mão Certa

 

Voltar