Programa Na Mão Certa

Os primeiros passos numa longa estrada

Fotos: Romero Cruz


Parceiros do Programa Na Mão Certa lotaram o auditório para celebrar os dez anos de trabalho



O Programa Na Mão Certa foi oficialmente lançado no dia 28 de novembro de 2006 na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Anos antes, a Childhood Brasil, logo após o início das suas atividades no país, em 1999, havia mapeado e identificado que as rodovias brasileiras apresentavam muitas vulnerabilidades a diversas violações de direitos, entre elas a exploração sexual de crianças e adolescentes.

Diante de indícios apurados entre 2002 e 2004, a organização decidiu realizar uma pesquisa sobre a vida dos caminhoneiros. “Suspeitávamos que este profissional que vive nas estradas e conhece o país como poucos, seria uma fonte confiável para entendermos melhor o fenômeno da exploração sexual de crianças e adolescentes no contexto das rodovias”, explicou Eva Dengler, gerente de programas e relações institucionais da Childhood Brasil, ao iniciar sua fala que relembraria a trajetória dos 10 anos do Programa Na Mão Certa.

Fator importante na realização do Programa, a primeira edição da pesquisa “O Perfil do Caminhoneiro no Brasil” foi realizada em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com financiamento da Arcor do Brasil e da Volkswagen Caminhões e Ônibus (atual MAN Latin America). Os resultados obtidos foram levados a grupos de trabalho compostos por representantes de governos, empresas, entidades e sociedade civil durante o ano de 2005.

“Aprendemos com a pesquisa que não bastava olhar para o problema da exploração sexual de crianças e adolescentes apontando culpados. Havia uma crença entre os caminhoneiros que eles estavam ajudando meninas e meninos quando ofereciam comida, carona ou dinheiro em troca dos favores sexuais”, afirmou Eva. A violação de direitos, disse ela, não era reconhecida, na medida em que os agressores não enxergavam as meninas como crianças, e sim, como pessoas já iniciadas na vida sexual, portanto “adultos” ou “quase adultos”.

“Precisávamos que os caminhoneiros assumissem a solidariedade, sim, esta também foi uma característica, uma vocação, revelada durante a pesquisa, e, assim, que eles se tornassem agentes de proteção dos direitos de crianças e adolescentes.”

Assim, o Programa Na Mão Certa foi criado com objetivo de reunir esforços e mobilizar governos, empresas e organizações da sociedade civil para um enfrentamento constante e contínuo da exploração sexual de crianças e adolescentes nas rodovias brasileiras. Naquele momento, o maior desafio foi envolver o setor empresarial, que não conseguia “enxergar” a sua conexão com o problema e, principalmente, como poderia ser parte da solução.

Identificou-se então um gancho estratégico para chamar a atenção das empresas à responsabilidade que é esperada pelos diferentes atores diante da sua cadeia produtiva. Como empresas estão sujeitas a punições pela justiça ou pelo mercado, com reflexos que podem afetar a sua reputação e, consequentemente, o seu negócio, é mais eficiente e sustentável que o meio empresarial busque ações conjuntas para prevenir riscos e danos diante dos desafios sociais onde a atividade econômica pode estar mais vulnerável.

Assim, com a parceria estratégica do Instituto Ethos e apoio técnico da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Childhood Brasil criou o Pacto Empresarial contra Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes nas Rodovias Brasileiras.

Até hoje, o Pacto é a principal ferramenta de articulação dos agentes econômicos para a causa. Com ele, empresas e entidades empresariais passaram a olhar o problema da exploração sexual de crianças e adolescentes com mais atenção, desenvolvendo ações e ferramentas para facilitar a tradução dessa grave violação de direitos para a agenda das empresas. O Pacto Empresarial foi lançado, em 2006, com 65 empresas e hoje, são 1.603 empresas e entidades empresariais signatárias.

“Esse aprendizado ajudou a fortalecer a lógica de construção coletiva e participativa. Criar grupos de trabalho com a participação das empresas e entidades, realizar encontros intersetoriais regionais e nacionais, foi e seguirá sendo a forma de pensar e desenvolver as ações para o Programa Na Mão Certa”, declarou Eva Dengler durante a apresentação.

O bom trabalho realizado até o momento, entretanto, não significará acomodação ou impedirá que se avance ainda mais. Novas diretrizes no âmbito de “Direitos Humanos & Empresas” vêm abrindo espaço para que os direitos de crianças e adolescentes agora integrem o olhar e a gestão do negócio. A Agenda 2030 traz nos Objetivos Desenvolvimento Sustentável (ODS), metas sobre a violência sexual contra crianças e adolescentes colocando toda a sociedade com a responsabilidade de promover, respeitar e mitigar esta perversa violação de direitos humanos.

 

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