Programa Na Mão Certa

Programa Na Mão Certa celebra 10 anos, revive sua trajetória e projeta novos desafios

Fotos: Romero Cruz


Ana Maria, diretora executiva da Childhood Brasil, destacou nunca ter acreditado que o caminhoneiro fosse o vilão no problema da exploração sexual nas estradas


Desde seu lançamento em 2006, o Programa Na Mão Certa realiza anualmente um encontro intersetorial. Em 2016 não foi diferente. Num evento com o auditório lotado, em São Paulo, estavam presentes representantes das empresas, entidades, parceiros, organizações da sociedade civil, governo federal e caminhoneiros que, juntos, tornam possível o enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescentes nas rodovias brasileiras.

O ambiente, entretanto, dava mostras de que não era um encontro igual aos anos anteriores. Ali estavam sendo celebrados os 10 anos do Programa Na Mão Certa, uma conquista pouco comum entre as iniciativas da sociedade civil organizada, em especial, quando se trata de enfrentar o perverso crime da exploração sexual de crianças e adolescentes.

“Celebrar os 10 anos do Programa é um desafio. Ao longo do tempo, esse encontro se tornou um fórum onde discutimos nossos avanços, trazemos nossas inquietudes e levantamos novas questões, um momento especial para todos nós”, disse Eva Dengler, gerente de programas e relações empresariais da Childhood Brasil, na abertura do evento.

Para a diretora executiva da Childhood Brasil, Ana Maria Drummond, manter o Programa Na Mão Certa por 10 anos foi “uma luta muito grande”. Ana recordou o dia em que, junto com Eva, iniciaram um primeiro projeto de pesquisa para conhecer melhor a realidade do caminhoneiro no Brasil. “A gente ouvia falar que o caminhoneiro tinha alguma coisa a ver com essa história, mas nunca acreditamos que ele fosse o vilão. Hoje nós temos certeza que ele não é o vilão e, muito pelo contrário, ele é um agente de denúncia e de proteção”, relembrou.

Mesmo sem ter, naquela época, uma estratégia traçada, Ana afirmou que havia a convicção de que enfrentar a exploração sexual de crianças e adolescentes nas estradas do país não era algo a ser feito sozinho. “Essa não é uma causa de uma única organização ou de um único setor. Era necessária uma atuação intersetorial que pudesse apoiar e alcançar o profissional da estrada para levantar essa bandeira e seguir conosco nessa transformação”, disse a diretora executiva da organização. “Nossa tese de 10 anos atrás está se comprovando hoje. Quando sentamos para desenhar esse Programa nem imaginávamos o que viria pela frente, nem que haveriam mais de 1.600 empresas e entidades empresariais conosco, não imaginávamos o resultado que celebramos hoje.”

Mais consciência

Ana Maria Drummond destacou que, antes da pesquisa “O Perfil do Caminhoneiro no Brasil” não tínhamos conhecimento do preconceito e do quanto o caminhoneiro era desvalorizado pela sociedade. Com o tempo, disse ela, esse profissional se transformou num agente de proteção de crianças nas rodovias. “Seguramente foi por meio das empresas e desses profissionais que conseguimos chegar onde chegamos”, afirmou.

Mesmo reconhecendo os avanços obtidos ao longo dos últimos 10 anos, a diretora executiva da Childhood Brasil ponderou ser preciso “fazer mais, ir além”. Como exemplo, citou a necessidade de se usar a tecnologia no enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescentes nas estradas do país e ter mais agilidade no mapeamento dos pontos vulneráveis à exploração sexual de crianças e adolescentes nas rodovias, além de avançar na conscientização dos caminhoneiros autônomos.

“A exploração sexual de crianças e adolescentes é um tema que as pessoas ainda não querem falar a respeito, mas, há dez anos, o nível de conscientização da sociedade era muito menor”, ponderou Ana. Ela lembrou que, quando estavam preparando o lançamento do Programa Na Mão Certa, era comum ouvir de empresários se não havia outra causa para apresentar. O tempo passou e, hoje, são justamente as empresas que tiveram a coragem de enfrentar o problema da exploração sexual de crianças e adolescentes nas estradas, as que mais se destacam em suas atividades, “sem ficarem vulneráveis de ter seus negócios e suas marcas relacionadas com esse grave problema”.

Por fim, a diretora executiva da Childhood Brasil disse que a organização investiu, nos últimos 16 anos, aproximadamente R$ 62 milhões na causa da proteção da infância contra o abuso e a exploração sexual, sendo R$ 10 milhões direcionados ao Programa Na Mão Certa.


Claudia Vidigal - Secretária Nacional de Promoção dos
Direitos da Criança e do Adolescente

Vamos regar as potencialidades

Presente ao encontro, a Secretária Nacional de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente, Claudia Vidigal, disse ter tido uma grata surpresa ao entrar no auditório e encontrar uma sala lotada de militantes. “Tomei um susto”, falou. Logo em seguida, porém, disse que não era para menos, afinal são 10 anos do Programa Na Mão Certa, o que gera uma consistência no trabalho.

Parceira do Programa, Claudia disse que não só a Polícia Rodoviária Federal, mas todas as outras polícias podem se aproximar e serem parceiras dos direitos de crianças e adolescentes. “A Polícia Rodoviária Federal pode puxar outras para essa mesma causa, em especial, a Polícia Rodoviária Estadual.”

A Secretária citou as 17 mil denúncias realizadas no Disque 100, em 2015, sobre violência sexual contra crianças e adolescentes e afirmou que é importante reforçar que hoje apenas 10% das ocorrências são denunciadas. “E, estou chutando alto, alguns dizem que são apenas 7%”, ponderou. Claudia Vidigal afirmou que na luta pelos direitos de crianças e adolescentes, há sempre a combinação entre dificuldades e potencialidades, e que, o importante é não “se afundar nas dificuldades”. “É preciso olhar para onde temos potência e, se ela for pequena, vamos regar, para crescer e transformar a realidade.”

Momentos de destaque

A comemoração dos 10 anos do Programa Na Mão Certa foi planejada com dois momentos especiais.

O primeiro foi a palestra internacional de Kylla Lanier, diretora do movimento Truckers Against Trafficking. Desenvolvido nos Estados Unidos, o Truckers Against Trafficking é uma ação de enfrentamento ao tráfico de pessoas e exploração sexual que conta com a importante atuação dos caminhoneiros americanos.

O segundo momento foi conduzido pelo jornalista e radialista Pedro Trucão, há oito anos embaixador e porta-voz do Programa Na Mão Certa. Junto com ele, 35 caminhoneiros participaram de um importante diálogo em que puderam expor as alegrais e dificuldades de rodar pelo Brasil, assim como falar dos desafios de ser um agente de proteção dos direitos de crianças e adolescentes. Uma roda de conversa que surpreendeu e emocionou as pessoas presentes.

 

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