Programa Na Mão Certa

Compromisso 3 – Participar continuamente de campanhas para erradicar o problema

Reinaldo Bulgarelli*

Este é o segundo compromisso para as empresas que aderiram ao Pacto Empresarial Contra a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes nas rodovias brasileiras.

Há campanhas voltadas para o enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescentes, assim como há campanhas de caráter mais genérico voltadas à promoção de direitos da criança e do adolescente de maneira ampla – direito à saúde, educação, assistência social, justiça, entre outros.

Quanto mais específica a campanha, mais diretamente se enfrenta a questão. Quanto mais genérica, há o risco da exploração sexual permanecer numa certa invisibilidade diante da agenda nacional e, assim, estaremos mais distantes da solução. Este cenário de invisibilidade vem mudando e hoje, como nos mostra sempre o Boletim do Programa Na Mão Certa, a mídia, as ONGs, os governos e as empresas já estão inserindo o tema em suas agendas, suas práticas, suas preocupações e planos de ação em vários níveis.

Podemos aprofundar um pouco mais as possibilidades de contribuição do meio empresarial em relação ao Compromisso 2, sem perder o seu foco. Pode-se pensar na realização ou participação nas duas modalidades de campanha, específica ou genérica, dentro de um plano estratégico mais amplo.

Campanhas

Na primeira modalidade, o Programa Na Mão Certa é uma das fontes de mobilização para o tema na sociedade, que tende a colocar a questão em maior evidência, gerar outros programas nesta área e inspirar ações de organizações das mais diversas na produção de campanhas de enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescentes. O próprio Programa, com apoio da Lew'Lara já criou duas campanhas. Uma é institucional, para a empresa falar com seus públicos internos, externos e com a sociedade em geral. Outra é dirigida diretamente aos caminhoneiros.

Nestas campanhas, espera-se que as empresas signatárias participem ativamente, contribuam financeiramente, juntem sua marca à causa e explicitem seu engajamento para toda a sociedade. As campanhas visam enfrentar o problema por meio da ampliação da consciência das pessoas, sensibilizando e procurando realizar uma mudança de postura na sociedade.

Para as empresas, a participação nas campanhas tem também o sentido de sensibilizar outras empresas e organizações da sociedade, oferecer uma referência para seu público interno e outros públicos de como adotar posturas explícitas de enfrentamento da exploração sexual. Uma empresa engajada em campanhas desta natureza, além de apoiar a mobilização da sociedade, tende a afastar o problema de sua rede de relações, demonstrando seu posicionamento.

A divulgação do "Disque 100", o disque-denúncia nacional de abuso e exploração sexual contra crianças e adolescentes é uma das formas de participação da empresa em campanhas de enfrentamento do problema. Há empresas que colocam o adesivo em seus veículos de transporte ou em seus meios de comunicação, acompanhando sua marca onde quer que esteja. Colocar o Disque 100 em seu site, contratos ou documentos de relacionamento com clientes e fornecedores, é uma das possibilidades de engajamento em campanhas.

A empresa pode também ser mais ousada e realizar suas campanhas, com apoio de especialistas no tema e em comunicação para estar em sintonia com os princípios que regem os esforços neste tema do enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescentes. Pode realizar uma campanha sozinha ou em conjunto com outras empresas e organizações da sociedade. Pode realizá-lo no âmbito local, nos municípios onde está presente. Pode produzir uma campanha visando sensibilizar e engajar sua cadeia de valor. Enfim, são muitas as possibilidades de participação em campanhas.

De forma mais genérica, também buscando impactos positivos na cultura de respeito aos direitos humanos da criança e do adolescente, a empresa pode participar de campanhas que tratam indiretamente da questão. Na medida em que fortalecemos a agenda do direito à educação de qualidade para todos, por exemplo, estamos contribuindo para gerar esse entendimento sobre o papel de todos no desenvolvimento sustentável no país e no qual não faz sentido a exploração sexual ou qualquer forma de violência contra nossas crianças e adolescentes.

Campanhas de apoio ao Fundo Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente estão nesta categoria de campanhas genéricas, mas que também podem fortalecer a rede local de atenção e contribuir no enfrentamento da exploração sexual como algo que atenta contra a dignidade de nossas crianças e o desenvolvimento sustentável para todos.

Ferramentas

O Compromisso 2 oferece, contudo, a possibilidade de uma atuação mais efetiva e menos pontual. Ele vai direto ao ponto, mas pode inspirar um engajamento gradual e mais amplo para que se concretize o que está dito em seu enunciado: participação contínua . Neste sentido, o Programa Na Mão Certa tem oferecido um conjunto de ferramentas e condições para que isso aconteça, partindo de uma interpretação mais integrada de todos os Compromissos e das ferramentas colocadas à disposição das empresas.

Ao falar de participação contínua em campanhas, o Compromisso 2 sugere o engajamento em um processo de mobilização e não apenas em campanhas pontuais, que são eventos dentro desse processo mais amplo. Segundo Bernardo Toro e Nisia Werneck , no livro Mobilização Social da Editora Autêntica: "mobilizar é convocar vontades para atuar na busca de um propósito comum, sob uma interpretação e um sentido também compartilhados. Convocar vontades significa convocar discursos, decisões e ações no sentido de um objetivo comum, para um ato de paixão, para uma escolha que ‘contamina' todo o quotidiano."

A mobilização é um processo educativo que deve gerar o entendimento do propósito comum compartilhado e um tipo de engajamento no qual as pessoas encontram oportunidades de inserção deste propósito no seu cotidiano, não apenas em ações extraordinárias.

A máxima elaborada por Toro e Werneck é que "não se faz mobilização social com heroísmo. As mudanças são construídas no cotidiano por pessoas comuns, que se

dispõem a atuar coletivamente, visando alcançar propósitos compartilhados". Um processo de mobilização em torno da causa do enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescente nas estradas, portanto, pode gerar ações extraordinárias, mas seu sucesso é medido pelo engajamento das pessoas em suas práticas cotidianas. Cada um deve encontrar, naquilo que faz, os meios de enfrentar a exploração sexual nas rodovias brasileiras, criando soluções que resultam de uma nova maneira de pensar e agir sobre a realidade.

A mobilização social é um ato de comunicação, ainda segundo Toro e Werneck, mas que não deve se confundir com propaganda ou divulgação porque exige ações de compartilhamento de discurso, visões e informações. Não é qualquer tipo de comunicação, mas essa que permita o compartilhar o propósito comum e que gere engajamento por vontade própria, não por imposição de alguém.

Em qualquer circunstância, essa comunicação deve ser sempre na linha de convocar vontades, gerar adesão, convidar para a ação num processo que envolve também as muitas outras pessoas que compartilham do mesmo entendimento sobre o problema e sobre as soluções.

Plano de comunicação

A comunicação, em geral, é entendida como uma atividade de fechamento de processos. Há também um princípio muito comum nas empresas de só divulgar interna e externamente alguma coisa quando houver algo de concreto, resultados, números ou fatos relevantes para mostrar.

Não é isso que está sendo solicitado no compromisso 2. O ideal é que a empresa elabore um plano de comunicação que contenha, entre outras atividades, a realização ou participação em campanhas como algo contínuo dentro desse processo de mobilização social mais amplo.

Neste sentido, a comunicação é vista como um processo que deve estar presente desde o início do engajamento no Pacto Empresarial, não apenas como noticiário de suas atividades ou dos resultados obtidos. Um plano de comunicação pode ser elaborado, contando com os profissionais da área e a participação dos demais membros da empresa que têm conhecimento sobre o tema ou são os responsáveis pela implantação do Programa.

Um processo de mobilização pelo enfrentamento à exploração sexual de crianças e adolescentes nas estradas envolve sensibilização e educação dos diferentes públicos de relacionamento da empresa por meio de ferramentas diversas. A proposta e as ações do plano de comunicação devem ter sintonia com o que já é realizado pela empresa, mas também podem inovar, inaugurar ações de tipo novo que fortaleçam valores da organização e o diálogo desta com seus diferentes públicos. Pode utilizar novos veículos de comunicação, criados para este fim.

Detalhando o Compromisso 2, há sugestões no documento "Compromissos e Ações":

  • Divulgue o Programa Na Mão Certa nos canais de comunicação da empresa (site, newsletters, folders institucionais, revistas, eventos, etc.).
  • Discuta com a área de comunicação a viabilidade de fazer um link do programa na página da intranet e internet da empresa, um release para a mídia local, um artigo sobre o programa e a adesão da firma ao Pacto Empresarial, etc.
  • Associe a causa ao Marketing da empresa (materiais promocionais alinhados ao negócio).
  • Fale com o Marketing sobre como incluir o tema nas peças para eventos internos e externos, na comunicação visual dos materiais promocionais, ou mesmo nos produtos da empresa.
  • Promova ações de sensibilização e mobilização interna e externa em torno do dia 18 de maio (Dia Nacional de Combate à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes) e de outras datas em prol de crianças e adolescentes (12 de outubro, por exemplo).
  • Marque essas datas no calendário de comemorações da empresa; envolva os funcionários, os familiares e a comunidade.
  • Apóie a realização de Fóruns regionais e nacionais sobre o tema.
  • Participe com outras pessoas, grupos e organizações de uma mobilização em torno do tema.

Ou seja, são muitas as possibilidades de participação da empresa – pessoa jurídica e pessoa física – nesta causa. Muitas empresas podem até mesmo encontrar na comunicação os motivos e as possibilidades para ampliar sua participação no Programa e na causa do enfrentamento à exploração sexual de crianças e adolescentes nas rodovias brasileiras. Sempre lembrando: não é qualquer comunicação, mas esta que engaja, gera entendimentos, compartilha visões e valores, propõe soluções.

* Reinaldo Bulgarelli é diretor da empresa de consultoria Txai Cidadania e Desenvolvimento Social

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