Reinaldo Bulgarelli*
Compromisso 1 - Melhorar as condições de trabalho do caminhoneiro, incluir o tema nos treinamentos desse profissional e difundir as boas práticas.
Este é o primeiro compromisso para as empresas que aderiram ao Pacto Empresarial Contra a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes nas rodovias brasileiras. Não é sem motivo que é o primeiro compromisso porque o Programa tem profundo respeito por estes profissionais.
O caminhoneiro tem papel de destaque no Programa Na Mão Certa. Desde o início, foi por meio da visão destes profissionais que o Programa procurou entender o fenômeno da exploração sexual de crianças e adolescentes nas rodovias brasileiras. Eles conhecem o problema, algumas vezes são até parte do problema e acreditamos que também parte da solução.
Portanto, o caminhoneiro é reconhecido no Programa como aliado, agente de proteção e de transformação social na medida em que for devidamente envolvido no movimento de respeito e promoção aos direitos de crianças e adolescentes.
Basta um entendimento simples sobre a economia brasileira para perceber a importância deste profissional. Basta também um contato rápido com os caminhoneiros para entender o quanto sua vida é marcada pelas estradas que eles percorrem, com aspectos negativos e positivos se juntando para produzir histórias das mais incríveis.
O Programa Na Mão Certa, ao colocar o problema de que alguns caminhoneiros exploram sexualmente crianças e adolescentes, também percebe que mais importante é mobilizar toda a categoria para este horizonte positivo do respeito e da promoção dos direitos da criança e do adolescente.
Esta mobilização pode enfrentar o problema da exploração sexual e, mais que isso, convidar todos os caminhoneiros para uma reflexão e práticas de tipo novo com todas as crianças e adolescentes sejam de sua família, da comunidade onde vivem ou da grande comunidade que se encontra nas rodovias por onde circulam.
Com este entendimento do papel do caminhoneiro, foi realizada uma pesquisa para conhecer melhor seu perfil e sua realidade. O trabalho resultou em algumas descobertas sobre a visão do caminhoneiro que devem ser contempladas no planejamento da comunicação e do relacionamento com os mesmos.
Como pontos críticos, foram levantados os seguintes: enfrentam grandes dificuldades com violência, insegurança, más condições das estradas e dos pontos de parada, entre outros; possuem uma visão sobre o papel da mulher que favorece riscos de exploração sexual, dentro de uma cultura muitas vezes machista de que o homem tem a "propriedade" do corpo da mulher; enfrentam muita solidão com as longas distâncias e muitos dias longe de casa; enfrentam os problemas oriundos da nossa desigualdade social e econômica; desconhecem os direitos das crianças e dos adolescentes e essa cultura de respeito e consideração pelas diferentes fases da vida, seja ela vivida em condições adequadas ou não; não se sentem reconhecidos e valorizados em sua profissão, dadas as condições de trabalho e a reputação que sua atividade acaba tendo na sociedade.
Como valores, foram apontados os seguintes: possuem forte relação com a profissão, que marca sua identidade; são batalhadores; possuem forte relação com a família, mulher e filhos; são solidários com os colegas na estrada; o caminhão tem uma grande importância para eles por ser sua casa durante suas viagens.
Qualquer ação com os caminhoneiros, assim, deve considerar estes aspectos, entre outros percebidos nas empresas que lidam cotidianamente com estes profissionais.
O mais importante é assumir que o fato de alguns caminheiros estarem envolvidos com práticas de violação de direitos humanos de crianças e adolescentes não pode servir para destruir a reputação de toda uma categoria.
A mobilização para que atuem a favor destes direitos, oferecendo possibilidades, canais de atuação, ferramentas para promover os princípios e práticas sugeridos no Programa, pode contribuir para essa percepção de que estão "na mão certa".
Isto, sem dúvida alguma, é fator que eleva sua auto-estima diante das próprias empresas para as quais trabalham e diante de toda a sociedade brasileira, visando um maior reconhecimento de sua importância para o desenvolvimento do país.
Ao assinar o Pacto, por sua vez, as empresas devem "intervir com ações e procedimentos junto à rede de serviços de transportes e aos prestadores de serviços ligados ao setor, levando o caminhoneiro a atuar como agente de proteção".
Para isso, é sugerido que busquem soluções por meio da promoção de discussão e tratamento amplo das questões que afetam a qualidade de vida no trabalho do caminheiro. Também é sugerido que o tema seja inserido nos programas de capacitação e atendimento dos caminhoneiros, assim como as boas práticas sejam disseminadas para servir de referência a outras empresas.
Detalhando e comentando o conjunto de sugestões para ações de qualidade junto aos caminhoneiros, o Programa incentiva que as empresas:
Há, nesta linha, a sugestão de enviar para a casa do caminhoneiro as revistas e os informativos sobre a empresa para aproximar a família do trabalho que este realiza, ampliando o entendimento e o orgulho pela importância de sua atividade. Um dia de visita dos familiares à empresa pode ser algo simples, mas com grande impacto nesta satisfação porque não há quem não tenha gosto por mostrar o que faz.
Há empresas que encontram formas de manter a família do caminheiro informada e em contato com ele como forma de enfrentar a solidão e de diminuir o estresse gerado com os longos períodos fora de casa.
A aproximação com a família do caminhoneiro é algo delicado e deve ser realizada com simplicidade e muita atenção para fortalecer os vínculos familiares e destes com a empresa. Cuidado para não expor o caminhoneiro com abordagens inadequadas de temas como este da exploração sexual de crianças e adolescentes, uso de drogas, prostituição ou infidelidade, entre outros. A idéia é fortalecer vínculos, melhorar a auto-estima das pessoas, promover o orgulho pela profissão porque isso pode ter impactos positivos também nas atitudes cotidianas dos caminhoneiros em relação aos riscos a que está sujeito e práticas inadequadas ou até criminosas.
Nem se imagina o estrago que causaria uma palestra apontando o percentual de caminhoneiros que dizem ter mantido relações sexuais durante as viagens, inclusive com crianças e adolescentes. O Programa, por meio de sua causa específica, pode ser uma grande oportunidade para a empresa melhorar a qualidade de sua relação com este stakeholder tão importante.
Mesmo quem não tem funcionários com esta função específica de caminhoneiro em seu quadro poderia encontrar formas criativas e eficazes de se comunicar com os mesmos em torno deste compromisso de melhorar suas condições de vida e reconhecê-lo como agente de transformação social. Nesta possibilidade estão as concessionárias administradoras de rodovias, postos e distribuidoras de combustíveis, bancos, restaurantes, hotéis, entre outras empresas que, nas estradas ou de alguma forma, têm contato com os caminhoneiros do nosso país.
Escreva para o Programa pelo e-mail contando suas iniciativas! Bom trabalho!