Programa Na Mão Certa

Compromisso 1 – Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes nas estradas.
O que as empresas têm a ver com isso? *

Reinaldo Bulgarelli*

O Programa Na Mão Certa visa reunir esforços e mobilizar governos, empresas e organizações do terceiro setor em torno do combate mais eficaz à exploração sexual comercial de crianças e adolescentes nas rodovias brasileiras. O que as empresas têm a ver com isso?

Pode parecer mais uma demanda para o investimento social ou destinação de verbas da empresa para ações sociais. É também isso, porque a realidade social brasileira não pode prescindir de recursos dos três setores para enfrentar os altos índices de pobreza que ainda temos entre nós. Aliás, a pobreza é uma das causas apontadas para a ocorrência da exploração sexual comercial de crianças e adolescentes.

Outras causas existem e é importante refletir aqui sobre algumas deles, como a omissão de empresas que insistem em não tratar do assunto na gestão de seus negócios e de seus relacionamentos com os diferentes públicos. A pobreza pode explicar e até justificar, para alguns, a existência da exploração sexual. Mas como explicar esse fenômeno sob a ótica do usuário ou das organizações às quais pertence, que não são tão pobres assim?

A pobreza, portanto, não explica tudo. Estamos falando de um movimento que deve promover diálogos em torno de questões éticas na conduta dos negócios, o que envolve também alertar todos os funcionários ou prestadores de serviços sobre a importância de se garantir e promover os direitos humanos de crianças e adolescentes.

Esse diálogo deve, assim, favorecer a construção de um posicionamento institucional, definição de princípios e conduzir a praticas concretas de erradicação da exploração comercial de crianças e adolescentes na cadeia de valor da empresa. Não estamos falando apenas de fornecedores ou público interno, mas de clientes, parceiros, concorrentes, associações, numa rede de relações muito mais ampla e que envolve muito mais empresas do que apenas as que realizam transporte rodoviário.

O caminheiro é o ator social mais visível na trama de motivações que alimentam a exploração sexual comercial de crianças e adolescentes nas estradas, sendo flagrado como usuário que mantém as condições materiais dessa violência. Contudo, sua prática também é denúncia de que algo não vai bem em suas condições de trabalho, em seu contrato de trabalho, formal ou informal com empresas de pequeno, médio ou grande portes. É denúncia de que de valores empresariais não estão sendo compartilhados adequadamente, assim como práticas de segurança envolvendo carga, combustível e caminhão. A integridade de seus funcionários ou prestadores de serviço não está sendo corretamente assimilada.

Por outro lado, mais que denúncia, o tema da exploração sexual de crianças e adolescentes nas rodovias brasileiras é uma grande oportunidade para empresas omissas ou descuidadas com a questão realizarem mudanças que envolvem qualidade de vida, clima organizacional, revisão de processos, qualidade da relação na rede em que estão inseridas e até melhoria de resultados. Não apenas por evitar riscos, mas por adotar princípios e práticas de responsabilidade social na condução dos negócios. Uma conduta ética e socialmente responsável é cada vez mais exigida em contratos e nas condições para ter acesso a certificações que fazem toda diferença no fechamento de um negócio.

Empresas que conduzem seus negócios com foco na qualidade das relações com todos os seus públicos são empresas sustentáveis e que contribuem para o desenvolvimento sustentável. Não se trata de práticas que apenas adicionam valor à empresa, mas que fortalecem vínculos de cooperação. Portanto, são elementos essenciais de sobrevivência, mais que fatores que aumentam a tal competitividade da empresa no mercado. Sem cooperação na rede de relações com os seus diferentes públicos, não há condições de a empresa se estabelecer no mercado e muito menos competir por contratos, clientes, investimentos de acionistas ou qualquer outra forma de sobrevivência e perpetuação do negócio.

Não cooperar em torno da causa da erradicação da exploração sexual de crianças e adolescentes nas estradas oferece riscos aos negócios e também representa perda de uma oportunidade de aprimorar as práticas e a qualidade das relações. O mesmo acontece internamente, na relação com os caminheiros, por exemplo. Eles podem ser vistos apenas como um grande problema frente aos riscos que oferecem à empresa e seus compromissos, mas podem ser reconhecido também como parte da solução. Mais que isso, os caminhoneiros podem ser os sujeitos sociais mais importantes no combate e enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescentes nas rodovias brasileiras ou, de maneira mais positiva, na promoção dos direitos da criança e do adolescente.

Empresas que estão engajadas nesta causa sabem bem o tamanho do desafio que assumiram e sabem também das boas oportunidades que estão surgindo em todos os níveis de relacionamento, descobrindo formas de inovar e melhorar a qualidade da gestão e dos relacionamentos.

Não agir coloca não apenas as crianças e adolescentes em risco, mas todo o negócio, comprometendo também o desenvolvimento sustentável do país. Agir é a possibilidade de gerar um processo de mobilização em torno de interesses legítimos da sociedade. Isso adiciona valor nas relações, agrega, fortalece vínculos, amplia horizontes. Pode nos levar, todos juntos, a patamares mais elevados de conduta ética e, portanto, de desenvolvimento sustentável, aquele que considera aspectos econômico, social e ambiental de forma integrada.

Exploração sexual de crianças e adolescentes nas estradas: o que as empresas têm a ver com isso? Melhor modificar a questão: como as empresas podem se dar ao luxo de não assumir a causa do combate à exploração sexual?

* Reinaldo Bulgarelli é diretor da empresa de consultoria Txai Cidadania e Desenvolvimento Social.

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